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  • 07

    NOV

    2016

    A lógica anti-utilitarista e descolonial das Ocupações

    por Pâmela Marconatto Marques em 07/11/2016

    Olhar o novo e interpelá-lo com perguntas velhas é um modo de neutralizar sua potência. 

    Cada vez que escuto a sugestão de que as ocupações "sejam produtivas" ou seja, tenham mais aulas, mobilizem os alunos a produzir artigos, se atualiza a impressão de que a radicalidade do que vêm acontecendo e sendo protagonizado pelos estudantes secundaristas (e agora também universitários) está sempre a um passo de ser capturada.

    Me parece que a pedagogia dissidente das ocupações é anti-utilitarista e descolonial. Trata-se, antes de tudo, de um outro modo de estar/pensar/agir na Universidade, mais afeito à inteligência coletiva dos bandos, mais próximo dos mutirões - e no entanto, pleno da ética e da estética da diversidade (que grita na presença massiva de meninas negras).

    Trata-se de um "estar juntos" vivo, dinâmico, pujante, rico em saberes e fazeres políticos. Mais afeito a responder as lutas que se anunciam urgentes agora do que esboçar a sociedade perfeita no porvir. Nasce das Ocupas um novo repertório democrático, incapaz de ser acionado por aulas tradicionais, que emerge do encontro desses corpos insurgentes, à medida que lutam e produzem resistência. 

    Cada vez que se fala em "só ocupar" afirma-se que é pouco, incompleto, incipiente, produz-se a falta, reduz-se a complexidade, neutraliza-se o inédito que esses milhares de jovens vêm fazendo nesse que já é considerado o maior protesto organizado no Brasil "democrático".

    Não subestimemos as Ocupas. Nos demoremos um pouco mais em nosso olhar, para não corrermos o risco de despotencializá-las, reduzindo-as ao que já conhecemos. 

    ...

    Pâmela Marconatto Marques
    Doutoranda em sociologia pela UFRGS. Professora da Especialização em Educação para a Diversidade (UFRGS) de 2012-2014.