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    AGO

    2015

    BUROCRACIA: O DNA DA ESCOLA?

    por Tathyana Gouvêa em 01/08/2015

    Sempre me chamou atenção o fato de a escola ser um ambiente bastante burocrático. Burocracia aqui entendida no sentido weberiano, cujos fundamentos são: hierarquia, autoridade legal (cargos), norma escrita e impessoalidade (WEBER, 1978). Parecia-me que de alguma maneira havia uma contradição entre a forma “fria” pela qual a escola é administrada e o seu principal fim: a educação, que em essência é relação (entre pessoas e mundo). Seria este modelo de organização um modelo recente trazido pela administração empresarial em função das demandas crescentes ligadas à mercantilização do ensino?

    Buscando as origens da Escola Moderna é possível observar uma surpreendente relação. Na Europa do século XVI começa a se difundir uma instituição cujas estruturas em muito se assemelham às das nossas escolas: os colégios humanistas. A maneira como esses colégios se organizavam, inspirados pela estrutura eclesiástica, fez com que a instituição escolar iniciasse um processo de distinção social com base no saber e na disciplina. O controle do tempo é um desses grandes marcos que diferenciam essas escolas das instituições medievais. Petitat (1994) nos mostra como este aspecto organizacional fez da escola uma instituição meritocrática, que passará a ser o instrumento de seleção para o preenchimento dos cargos e hierarquias nas demais instituições sociais.

    Antes, o tempo do aluno dividia-se em largos períodos, adaptáveis ao ritmo do estudante, o qual apresentava-se para a déterminance ou para a licença quando ele e seu mestre consideravam a sua formação suficiente. Depois, este tempo é repartido em períodos anuais; horários estritos e bem carregados dividem as matérias pelos dias e horas. Relógios e sinetas, já presentes no século XV e muito difundidos no século XVI, marcam agora as atividades escolares. Os alunos dispõem de um tempo limitado para assimilar determinadas matérias, para entregar os temas e para apresentar-se aos exames. É o principio dos prêmios pelo desempenho escolar, das censuras e das recompensas, dos alunos brilhantes e dos preguiçosos. A cada ano, os ‘bons’ são promovidos e os ‘maus’, rebaixados ou eliminados. (p. 79)

    É pelo controle do tempo e pela seriação que os colégios passam a ter sua função seletiva. Este princípio converge com as ideias vigentes na época, em que se buscava o conhecimento e a cultura como forma de distinção, próprios da classe burguesa em ascensão. Não só a seleção passou a ser uma característica dos colégios, como também o ritmo de trabalho intenso, passando a ocupar os jovens com extensa carga horária de estudos em oposição ao ócio, que então era associado aos vícios. 

    A definição de um espaço próprio de ensino também é uma introdução dos colégios humanistas do século XVI. Esses colégios são implementados nas cidades, ainda que suas inspirações arquitetônicas fossem baseadas nos mosteiros, localizados nos campos. Cada classe ganhou uma sala, todas alocadas uma ao lado da outra, facilitando o controle e o acesso dos professores e alunos. Ainda que as diferenças arquitetônicas em função da ordem religiosa transparecessem nas plantas escolares, em todos eles se nota a presença das salas de aula e dos pátios. “Foi nesse momento histórico preciso que a escola deixou de ser apenas um agrupamento de mestre e discípulos e tornou-se um prédio específico, um lugar” (BUFFA, PINTO, 2007, p. 159).

    Pelo tempo e pelo espaço, os colégios humanistas do século XVI introduziram mudanças significativas nas instituições de ensino que se consolidaram como parte da atual cultura escolar. Tais mudanças estão associadas a um novo modelo de gestão dos indivíduos que se tornava cada vez mais frequente na época. Os colégios rompem com o modelo das corporações da Idade Média e se estruturam de forma burocrática. Ainda que esse modo de organização não seja uma exclusividade dessas instituições, são elas que disseminam uma tendência geral na época. (PETITAT, 1994)

    (...) a alteração fundamental foi operada em grande parte pela passagem de uma cultura fundada na oralidade para uma cultura escritural, baseada na difusão da palavra escrita (crescimento da alfabetização), mas principalmente na organização do pensamento e da relação do homem com o mundo pela lógica escritural. Esse primado permitiu que viesse a defender (...) a invasão da forma escolar a todos os espaços e instituições da sociedade atual. (VIDAL, 2005, p. 38)

    Há, portanto, uma dupla relação da escola com a gênese das organizações burocráticas. Ao mesmo tempo em que as instituições de ensino passam a se estruturar de maneira burocrática, disseminando tal modelo organizacional pelo mundo, é apenas pelo resultado de seus esforços de alfabetização e disciplina que se consegue oferecer para a sociedade as bases necessárias para que a estrutura burocrática se estabeleça enquanto modelo, uma vez que para esta são imprescindíveis a norma escrita e a seleção pela meritocracia.

    Mas se por um lado a Escola Moderna se define por sua forma burocrática, a própria história da educação nos revela que este foi o modelo de organização disseminado, não tendo sido em nenhum momento histórico o único modelo (CAMBI, 1999). A forma como nos organizamos é sempre uma construção social. Não devemos naturalizar este processo, como se fosse alheio às nossas escolhas.

    Hoje, diversos educadores estão repensando esta forma escolar, buscando novos espaços de aprendizagem, flexibilizando o tempo escolar, humanizando as relações e trazendo para a escola outros objetivos que não o da seleção social. Paralelamente às descobertas genéticas, precisamos descobrir que nem tudo traz em si um DNA.

     

    Referências:

    BUFFA, Ester e PINTO, Gelson. Colégios do século XVI: matriz pedagógico-espacial de nossas escolas. In: BENCOSTTA, Marcus (org) Culturas escolares, saberes e práticas educativas: itinerários históricos. São Paulo: Cortez, 2007.

    CAMBI, Franco. História da pedagogia. São Paulo: Fundação da UNESP, 1999.

    PETITAT, André. Produção da Escola / Produção da Sociedade. Porto Alegre: Artes Médicas, 1994.

    VIDAL, Diana. Culturas escolares: estudo sobre práticas de leitura e escrita na escola pública primária (Brasil e França, final do século XIX). Campinas, SP: Autores Associados, 2005.

    WEBER, Max. Os fundamentos da organização burocrática: uma construção do tipo ideal. In: CAMPOS, Edmundo (org). Sociologia da burocracia. 4ª ed. Rio de Janeiro: Zahar. 1978

     

    *Tathyana Gouvêa é pedagoga e doutoranda em Educação pela USP, administradora pela FGV e mestra em administração escolar pela PUC-SP. 

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