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  • 26

    MAI

    2015

    Burocratas, Siglas e o Fim da Educação

    por MARCELO FERNANDES ROLLO em 26/05/2015

    Os burocratas da Educação entendem tudo de siglas. São engenhosos na arte de criar nomes cheios de pompas para ideias aberrantes, que inundam as escolas.

    PROEIS, Programa Estadual de Integração na Segurança, talvez figure entre as maiores invenções na exata proporção dos maiores absurdos educacionais que se tem notícia na educação pública do Estado do Rio de Janeiro. Policiais Militares, fardados e armados, fazendo a “segurança” dentro das escolas públicas. A composição perfeita num espaço de ordens sempre gritadas, rígido regramento disciplinar e repleto de grades e cadeados. Coisa de gênio!

    O secretário de Educação à época da implantação do programa, Wilson Risolia, assina embaixo o epitáfio ao diálogo; “Quem desconsidera a necessidade de segurança (na escola), certamente desconhece a realidade da educação pública brasileira (...) Peço desculpas pela franqueza, mas, aos críticos, vai a minha certeza de que, para determinadas situações, o diálogo passa a ser uma versão semântica de um romantismo que não existe mais, infelizmente.”

    Foi-se o tempo que a burocracia governamental causava-me espanto. Espantoso é constatar que muitos educadores fazem coro às palavras sepulcrais do então secretário. Certo dia, incomodado com a presença daquele representante da ordem armada do Estado circulando entre os estudantes nos corredores internos da escola onde eu trabalho, visto que até o momento ele permanecia sempre no pátio externo, o que já considerava triste, ainda que menos pior, me dirigi até a coordenação pedagógica e interpelei a educadora responsável sobre o fato da angústia; “É orientação da escola que o policial fique aqui dentro?” Recebi como resposta a pergunta: “O senhor quer que ele fique aonde?” Antes que me recuperasse, a dita senhora apontou para um portal de madeira arrancado de uma sala que estava encostado ao seu lado é disse: “Olha o que esses alunos fizeram numa sala! Arrancaram isso!” Como um tolo persistente interroguei: “A senhora acha que isso é caso de polícia?” A resposta promoveu o império do silêncio e a minha confusa e imediata retirada do recinto: “O senhor acha que é caso de quê?”.

    Os atuais burocratas das maravilhosas repartições que gerenciam as escolas públicas brasileiras devem realmente conhecer a realidade da educação pública do Brasil muito melhor do que os seus críticos. Despojando-me de qualquer romantismo semântico sugeriria a criação de uma marca de “qualidade” que poderia ser pintada nas entradas de todas as escolas públicas. Também poderia ser chancelada em todos os documentos. Um belo carimbo... a sigla poderia ser algo como; AJEA, “Aqui Jaz um Espaço de Aprendizagem”.

    ...

    MARCELO FERNANDES ROLLO
    Sou Educador das redes públicas de ensino básico do Estado e do Município do Rio de Janeiro. Sou graduado em Licenciatura em História pela Faculdade de Formação de Professores da UERJ. Exerço, desde então, o magistério, já tendo atuado em diversos e diferentes espaços escolares, lecionando em cursos preparatórios (populares e comerciais), no ensino público (6º ao 9º ano do fundamental, ensino médio, educação de jovens e adultos) e no ensino privado (6º ao 9º ano do fundamental e ensino médio). Trabalhei em escolas do interior e da região metropolitana, com diferentes classes sociais e em espaços que vão de unidade escolar pública em comunidade de lixão à unidade escolar privada de classe média de cidade interiorana. Além disso, entre 2009 e 2011, cursei sem concluir a graduação em pedagogia na Faculdade de Educação da mesma UERJ. Trabalhei, ainda, por 4 anos, em projetos de Educação Ambiental vinculados a referida universidade.