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  • 27

    JUL

    2015

    Entrevista com Ana Gouvêa Bocchini do Coletivo Escola Família Amazonas

    por Redação em 27/07/2015

     

    Portal do Educador: Poderia nos contar um pouco sobre sua trajetória como educadora?

    Entrei na faculdade de pedagogia na UNESP de Rio Claro muito nova, com 19 anos, em 2003. Como muitos, nesta fase de vestibular não tinha certeza do porque da escolha, mas sempre gostei de crianças e sempre acreditei que a educação é o caminho para a transformação. Com este pensamento, ainda imaturo e talvez simplista, iniciei minha trajetória como educadora.

    No final do meu primeiro ano consegui um estágio para trabalhar com adolescentes em situação de risco no período contrário da escola, quatro vezes por semana. Eu era responsável por uma turma de cerca de 15 adolescentes de 14 a 17 anos, alguns deles em liberdade assistida, e todos moradores da periferia, com famílias de baixa renda e baixo rendimento escolar. O projeto, chamado “Agente Jovem” era uma parceria da prefeitura com o governo federal e eu não tinha uma boa estrutura de trabalho. Ficava com este grupo em uma casinha, sem telefone, sem computador, com muito pouco material de papelaria. Tinha pouca orientação por parte da minha coordenadora.

    Inventava... Trabalhava intuitivamente com educação ambiental, leitura, hip hop, teatro e artes manuais. Ia improvisando, conversando com diversas pessoas para trocar experiências e ideias e fui me apaixonando pelo trabalho, de 20 horas semanais e salário de R$ 300,00 por mês.

    Fazíamos regras coletivamente, tínhamos equipes de arrumação, lanche, saídas, etc... comecei a estudar educação democrática, visitei projetos sociais como a “Casa do Zezinho” e também a escola Lumiar. Depois, já nos dois últimos anos da faculdade, me envolvi em um projeto em outro bairro de periferia de rio claro. Foi uma parceria entre uma professora da universidade (minha orientadora e grande amiga até hoje) e uma empresa. Nos foi dado muita liberdade para desenvolver o projeto, que tinha apenas um direcionamento: trabalhar com crianças de 8 a 12 anos no período contrário da escola. Começamos o projeto juntos, decidimos o nome do projeto com as crianças (EPA – Educação, Periferia e Arte), vimos com eles o que queriam ter como atividades e escolhemos juntos: Hip Hop (dança e rima), sexualidade e educação ambiental. Tínhamos um trabalho intenso com as famílias e convidávamos jovens do bairro para serem professores remunerados de Hip Hop.

    Em todo este processo, de certa forma sempre me inseri na educação ambiental e, por motivos pessoais, vim parar em Manaus. Aqui me distanciei dos projetos sociais com crianças e adolescentes, mas me inseri no mundo da conservação. Trabalho hoje com gestão participativa de Unidades de Conservação, principalmente na formação e fortalecimento de conselhos gestores destas áreas. Sempre com princípios da participação real, das tomadas de decisões coletivas e legítimas, já passei pela secretaria de meio ambiente estadual e hoje atuo numa ONG.

    Tenho dois filhos e como eu meu marido trabalhamos muito, não temos família perto, etc, optamos por colocá-los na creche. A procura por uma creche com meu primeiro filho, em 2011, foi desesperadora: não gostava de nenhuma opção: ou pelo preço, ou religião, ou falta de espaço ao ar livre, etc... Até que encontrei uma escolinha que no geral eu gosto bastante e até hoje os dois “estudam” lá.

    Agora a busca é por uma escola de ensino fundamental e o desespero bateu novamente... assim começou o CEFA.

    Portal do Educador: O CEFA (Coletivo Escola Família Amazonas) funciona como uma escola?

    As escolas particulares de Manaus são quase estritamente conteudistas, muitas delas religiosas, sem respeitar a diversidade cultural. Quem já ouviu falar na pedagogia Waldorf, nas escolas democráticas, até mesmo no construtivismo, ou qualquer outra linha pedagógica que seguem os ideais de grandes educadores como Paulo Freire, José Pacheco, Emília Ferreiro, entre outros, sofre com a falta de opções. As públicas, no geral, seguem padrões caóticos.

    Como pedagoga, moradora de Manaus há 7 anos e mãe de dois filhos (um deles quase no 1º ano do Ensino Fundamental, já sendo cobrado a saber escrever antes da hora, com 4-5 anos, que usa livros didáticos prontos que ensinam África antes de Brasil, Pantanal antes de Amazônia, etc, etc...), este tema não saía da minha cabeça. Pensava: Vou ficar sempre reclamando das escolas que eles estudam? Vou mudar de cidade? Ou vou tentar fazer algo diferente?

    Qualquer uma destas coisas podia acontecer e antes de tomar uma decisão, convidei amigos e conhecidos que sabia que passavam por situação semelhante a minha, para participar de um grupo de mães, pais e interessados em discutir: “educação em Manaus: outro modelo é possível?”.

    A proposta era fazermos rodas de conversas, estudar textos, ver filmes, convidar pessoas para contarem experiências de escolas de linhas pedagógicas alternativas à tradicional e marquei um primeiro encontro para abril.

    Como ponto de partida da nossa reflexão exibimos o filme “Quando Sinto que já sei”.  Depois cada um falou um pouco sobre o filme, sobre as angústias das alternativas de escolas em Manaus para nossos filhos e sobre possibilidades de ações para tentarmos transformar um pouco essa realidade de escolas tradicionais e/ou precárias.

    Entre idas e vindas chegamos a uma conclusão de encaminhamentos! De antemão vimos duas possibilidades:

    “Usar o que já tem”. Isso é, partir de uma escola que já exista e que o(a) diretor(a) tenha interesse em fazer mudanças e nós possamos “adotar” essa escola com ajuda financeira, teórica, prática... Para isso pensamos em visitar escolas, fazer contatos com diretores e/ou promover um seminário para diretores de escolas públicas e particulares.

    E Caso a gente não obtenha nenhuma escola interessada (a ideia de trabalharmos com o que já existe foi bem forte), pensaríamos em abrir uma cooperativa e construir a nossa escola, privada...

     

    3) Quais avanços já conquistados?

    De lá até aqui avançamos na primeira opção  (“partir do que já existe”). Temos feito reuniões quinzenais e cerca de 20 pessoas estão participando das reuniões e ações. Optamos por organizar o seminário, onde despretensiosamente escrevi para algumas pessoas como Helena Singer, Braz e Pacheco que toparam vir. Depois de uma longa insistência também conseguimos uma parceria com a SEMED e agora o seminário terá um público de 300 pessoas, sendo 220 gestores de escolas municipais.

    Portanto, por enquanto o foco de atuação do CEFA tem sido o seminário, mas mesmo assim já vejo avanços nos grupo como um todo: nas férias de julho nos organizamos em rodízio colaborativo com atividades para as crianças; alguns educadores integraram nosso grupo trazendo contribuições que vão para além do nosso perfil de pais e mães e, o mais recente avanço, é que o CEFA foi convidado para integrar o GT INOVAÇÃO E CRIATIVIDADE NA EDUCAÇÃO BÁSICA coordenado pelo MEC.

     

    4) Poderia nos contar um pouco sobre o seminário?

     

    O Seminário "Mudar a Escola, Melhorar a Educação: Transformar vidas" é a primeira iniciativa do CEFA. Não temos a finalidade de lucro e os integrantes do coletivo trabalham voluntariamente. Conseguimos alguns parceiros, importantes como o MEC e a SEMED.

    Para a compra de passagens e hospedagem dos convidados fizemos uma campanha na internet na qual arrecadamos R$ 6.000,00.

    Acima de tudo, acreditamos ser uma oportunidade ímpar para a região norte, que sofre com a falta de políticas públicas inovadoras, em especial na educação. Manaus tem 2 milhões de habitantes e é a terceira maior rede de ensino municipal do país com mais de 400 escolas e 230.000 alunos. Vemos que este debate se torna urgente e necessário e acreditamos que com este evento estaremos plantando uma semente, da qual esperamos que gere frutos e novas oportunidades.

    O seminário terá duração de dois dias (31/7 e 1/8), com as seguintes mesas de debate:

     

    1.        O Amazonas repensando a forma de educar.

    2.       Os desafios da educação no Brasil e experiências escolares inovadoras.

    3.       Bate Papo com José Pacheco.

    4.       Por que devemos transformar as escolas?

     

    Além disso, faremos exibição de filmes e debates para tentarmos gerar encaminhamentos para as escolas do município de Manaus.

     

    Informações no site: https://doity.com.br/seminario-mudar-a-escola

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