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  • 04

    JAN

    2016

    Lição de cidadania e necessidade de mudança: Porque ocupar a Escola Alves Cruz?

    por Guga Dorea em 04/01/2016

    Eu estava tranquilo em meu cotidiano, quando o celular tocou. “Pai, venha para a escola. Estamos preparando a ocupação”. Naquele instante, fluxos inesperados interromperam minha vida aparentemente  linear e me carregaram para o inesperado.  Minha filha estava prestes a fazer História. Corri para a escola e nada havia acontecido. A ocupação não havia dado certo.

    Voltei a meu dia a dia, mas de novo o celular tocou. “Pai, agora vai. Tem muito mais alunos dispostos e tem até advogado por aqui”. Cheguei lá e encontrei um ambiente super propício. Alguns estudantes, já dentro da escola, autoproclamaram a ocupação e outros, que estavam fora, queriam entrar. Até que a ocupação se transformou em realidade.

    Porque o Alves Cruz? Perguntaram os mais céticos. Isso porque a escola não se encontrava na lista das que podem ser fechadas. “Trata-se de um protesto de apoio”, declarou logo um estudante. Mas como toda ofensiva, vem logo a  contra-ofensiva. Não poderia ter sido diferente nesse caso. Foram várias, mas quero destacar a que mais me impressionou. Estudantes contra a ocupação reivindicando provas e aulas. Eram em sua maioria alunos do terceiro ano querendo se formar e partir para outra na vida.

    O que mais me impressinou, no entanto, foi a forma violenta da reação. Até pedras foram lançadas para dentro da escola ocupada. Como pai, fiquei extremamente preocupado com a integridade física de minha filha e a de todos os que estavam ocupando. Confesso que cheguei a propor: “abandonem a ocupação”.  A tensão chegou a uma patamar insustentável a ponto deles chegarem a desistir, afirmando que sairiam pacificamente. No final do dia, entretanto, o jogo virou e eles conseguiriam resistir. A escola estava definitivamente ocupada.

    Fiquei de plantão, praticamente em toda a ocupação, por conta de minha preocupação com a integridade física deles e também, não poderia ser diferente, por apoiar o movimento. Mas os ânimos se apaziguaram e a ocupação seguiu o seu curso. Cheguei a escrever um artigo, publicado no jornal eletrônico “Correio da Cidadania” com o nome Ocupação nas Escolas de São Paulo: uma experiência libertária (http://migre.me/swBTV). A pergunta que ficou solta no ar em relação ao Alves Cruz, no entanto, foi uma só: porque, mesmo sabendo que estudam em uma escola considerada modelo pelo Governo do Estado, eles não desistiram?

                Tenho as minhas hipóteses que, acredito, se confirmaram após ter feito uma entrevista informal com duas alunas que ocuparam a escola, além das muitas conversas informais que tive durante a ocupação. A meu ver, foram três os motivos principais: SOLIDARIEDADE, ESPÍRITO DE COLETIVIDADE E NECESSIDADE DE MUDANÇA.

     

    Eis então as declarações que vieram a confirmar minha hipótese:

     

    DECLARAÇÃO 1:

    “Nós ocupamos para apoiar as outras escolas. O Alves Cruz tem muita visibilidade. É vista como uma escola modelo para o governo. Somos a única escola em tempo integral que ocupou e, para nós, não é uma escola modelo. Fomos enganados. No periodo da manhã tem as aulas tradicionais e durante a tarde teria que ter aulas mais diversificadas.  Mesmo as que eles chamaram de diversificadas acabaram virando aulas para fazer lição em casa. A única realmente diversificada é a eletiva (momento em que os professores propõe e os alunos escolhem em função de seus interesses) e tem o clube (único momento em que os projetos dos estudantes são realmente colocados em prática. Tem música, teatro e muito mais).

    Tem mais aulas de Matemática e Português, mas não tem de Filosofia e Sociologia. São aulas que fazem as pessoas pensarem, mostram a sociedade do jeito que ela é. Eu sei que Matemática e Português são importantes., mas eles dão foco mais para as exatas e menos para as aulas que, com discursos mais complexos sobre a realidade, nos fazem pensar. Na prática, são aulas muito faladas que ficam muito chatas, desinteressantes e enjoadas. A escola não é  apenas a sala de aula, com aulas sem signficados que, se nós não aprendemos, somos chamados de burros.

    Aprendi muito com as aulas livres na ocupação. Teve aula de sexismo, peça de teatro falando sobre a desigualdade social e a exploração no mercado de trabalho. Foram aulas que me fizeram pensar no todo. Teve grupo de Carimbó. A ocupação mostrou que o adolescente também pensa.

     

    DECLARAÇÃO 2:

    Ocupamos justamente porque o Alves Cruz não é uma escola modelo. E também não gosto que pense que somos uma escola modelo. Não gosto de comparar. Tem um desnível muito grande entre nossa escola e as outras. Ocupamos por solidariedade, pois também somos contra a reorganização das escolas. Daqui para frente, o estudante tem que ser consultado.

    Não existe escola modelo. Na verdade, eu perco nove horas na sala de aula. A parte mais diversificada não é tão útil assim. Não aproveitamos de verdade. No papel, esse modelo do Alves Cruz é bonito. Na prática o que temos são aulas super cansativas. Sei que são importantes, mas chegamos a ter seis aulas de Matemática e seis de Português e apenas duas de Sociologia e duas de Filosofia. 

    Eu não consigo ficar o tempo todo na sala de aula e sou vista como aluna problemática. Mas as aulas são desinteressantes. Só temos de escutar e anotar e não podemos pensar e pesquisar. Não gosto também do jeito que os estudantes sentam, em fileira. É como se fosse proibido não aprender. Quem não consegue absorver todo o conteúdo é barrado.

    Na verdade, não existe incentivo. A própria Eletiva está mudando. Os professores falam que é para escolher por necessidade, a partir de nossas dificuldades, e não por interesse, como deveria ser. Acaba então virando uma aula reforço e não um espaço em que colocamos em prática nosso interesse, o que gostamos de fazer. Acaba não tendo tempo nem para conversar. Foi na ocupação que aprendi a conversar com as pessoas, a ver a educação com outros olhos. Isso porque teve muitas rodas de conversas e aulas livres”.

    No Alves Cruz e em praticamente todas as outras escolas ocupadas, os estudantes tiveram aulas de história, Sociologia, Filosofia, Física, Teatro,  Culinária e muito mais. Todos que me conhecem sabem que minha entrada na area da educação foi por conta do nascimento de meu primeiro filho que tem a Sindrome de Down. E o que sempre defendi  foram aulas mais significativas para a sua condição. O que os estudantes citados acima reclamaram foi justamente a falta de um ensino mais significativo para a condição de cada um deles. 

    Ora, o que os estudante que ocuparam as escolas tiveram foram justamente aulas mais livres e significativas. Se eles começarem a defender, no coditiano da sala de aula,o um ensino mais significativo para eles, a escola não será mais a mesma. Portanto, o que defendo para meu filho foi exatamente o que aconteceu durante as ocupações.

    Como diria, inclusive, o especialista em alfabetização José Pacheco, cada aluno, independente de sua condição, aprende de um jeito diferente.  Trata-se aqui de quebrarmos a dualidade excludente que separa os seres humanos em “iguais” de um lado e negativamente “diferentes” de outro. Tratar os estudantes, vistos como “sem deficiência” como “iguais” é torná-los também  invisíveis, da mesma forma que o rótulo “com deficiência” cria uma névoa espessa sobre a pessoa, impedindo que ela seja percebida em sua singularidade, que é única nica e irrepetível. Enfim, do jeito que esse sistema de ensino, que foi criação dos séculos XVIII/XIX, ainda vigora (nunca esquecendo que para toda regra há alternativas), o que impera é a invisibilidade.

     

    Guga Dorea é Jornalista, Sociólogo e Educador Social na área da inclusão, além de integrante da rede Românticos Conspiradores e do Comitê de  Mães e Pais em Luta. Atua hoje, com seu projeto de Oficina de Escrita Criativa, no Instituto Casa do Todos.

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    Guga Dorea