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Combate ao Racismo

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  • 03

    JUN

    2015

    Marcha das Vadias: A luta das mulheres

    por Beatriz Almeida Prado em 03/06/2015

    foto: Fernando Oliveira Soneca

     

    Quando chegamos em frente ao MASP, eu e meu namorado Fernando deparamo-nos com umas 500 mulheres aglomeradas terminando alguns cartazes, escrevendo mensagens de liberdade em seus próprios corpos e começando a ensaiar alguns gritos. 

    Fiquei muito feliz por estar ali naquele momento, e instantaneamente refleti sobre a coragem daquelas mulheres reunidas, muitas delas semi-nuas, pintadas e cantando gritos de liberdade tais como “Legalize! O corpo é nosso! É nossa escolha! É pela vida das mulheres!”. Porém, ao mesmo tempo, pensei como parece ridículo em pleno século XXI, nós mulheres termos que protestar por Direitos tão básicos de liberdade. 

    Em seguida a marcha andou pela Avenida Paulista sentido Consolação, o número de pessoas cresceu bastante e o ato ganhou força. Quando olhei éramos muitas! tantas! 

     

    Lembrei-me das pequenas coisas, pequenas mas que constantemente fazem-me sentir invadida e humilhada e que só as mulheres que estiverem lendo agora meu relato serão capazes de entender. Tal lembrança me fez gritar mais forte e de todo o meu coração junto ao resto das manifestantes.

    Senti força e pensei que eu não estava sozinha nas lutas diárias contra os “delícia”, “gostosa”, e outras referências desrespeitosas que inúmeras vezes recebi, quando tudo que eu queria era desempenhar uma atividade do cotidiano, como por exemplo, ir a pé até a padaria. Me senti compreendida em situações que me foram negados empregos pelo fato de eu ser mulher, quando me senti ofendida ao me falarem em tom de deboche que “lugar de mulher é no fogão”, e nas inúmeras situações em que consegui visualizar clara diferença de tratamento entre eu e um homem. 

    Estávamos todas ali unidas protestando, em nome das mulheres que já foram vítimas de abortos clandestinos, por aquelas que sofreram abuso sexual ou abuso verbal, pelas frequentes invasões a nossos corpos e liberdades individuais, por sermos equiparadas à mercadorias na sociedade em que vivemos, dentre muitas outras situações que hoje, escancaradamente ou não, estão inseridas na consciência dos homens e até  das mulheres desde a infância. 

     

    Por isso nos é tão evidente que a questão deva ser lidada a partir da educação. Quem já não ouviu algum pai dizer ao seu filho que determinada situação era coisa de “mulherzinha”, assim no diminutivo (alguém já ouviu que uma coisa é menor por ser de “homenzinho”?). Taí: uma semente de machismo. Ao completar 20 anos quantas ele já não vai ter recebido?

     

    Como bem disse Audre Lorde, grande referência na luta feminista, “las herramientas del amo não destroem la casa del amo”, ou seja, os mecanismos dados pelo superior (neste caso o sistema patriarcal) não são capazes de quebrar o próprio sistema. Lorde está sugerindo que a noção de empoderamento e conquista da voz feminina só poderá ocorrer quando houver uma mudança de paradigma. Em outras palavras: Nós só poderemos conquistar o sistema, alterando o próprio sistema.

     

    Todavia a falta de ferramentas efetivas não pode nos impedir nunca de lutar contra as agressões do Patriarcalismo. A cada dia mais nos faremos ouvir e exigiremos respeito, e mesmo que a passos de tartaruga, buscaremos quebrar a supremacia do homem nas relações sociais utilizando as possibilidade que nos são dadas.

     

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    Beatriz Almeida Prado