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    MAI

    2015

    Nem psicanálise nem pedagogia: a instituição escolar enquanto lugar de escuta

    por Paula Cintra dos Santos em 20/05/2015

     “A chuva fará germinar a semente se o solo for fértil. O saber da psicanálise poderá ser operativo para um educador se ele puder se apropriar desse saber.” Kupfer.

     

    A breve pesquisa pretenderá desenvolver uma interface possível entre educação e psicanálise, com o objetivo de pensar a prática educativa como importante ferramenta de reconhecimento do sujeito por meio da valorização dos diversos saberes que circulam na instituição escolar, independente destes serem validados pela ciência, possibilitando ao educador um diferente modo de ver e compreender a sua prática e função. Dessa maneira, o trabalho visa enriquecer a prática pedagógica através da transmissão que a psicanálise pode fazer ao educador de uma ética outra, conforme descreve Kupfer em Freud e a educação: o mestre do impossível (1989).

    Um breve panorama da educação no Brasil e a função social da escola

    O Brasil possui características de países em desenvolvimento, entre elas estão a desigualdade na distribuição de renda e as imensas deficiências no sistema educacional.

    Há uma grande relação entre estas duas características, já que, segundo Fourez, (2008) um sistema de ensino é um sistema de reprodução da sociedade:

    Historicamente, educar, no sentido geral de criar crianças, não é atribuição exclusiva quer dos pais/mães biológicos, quer da família, quer da escola. O cuidado dos mais jovens, a transmissão da cultura do grupo social (o ensino de modos de conhecimento, produção, relação e participação) e a preparação para os papéis adultos (na guerra, trabalho, sexualidade, família e cidadania) eram tarefas educativas assumidas por vários indivíduos, grupos e instituições (mães/ pais, idosos/as, professores/as, famílias extensas, clãs, tribo, vizinhança, comunidade, igrejas e escolas) por meio de uma variedade de arranjos. (WILLIAN, 1983, apud, CARVALHO, 2014, p. 48)

    Carvalho (2014) afirma que a educação escolar tornou-se modo predominante nas sociedades modernas democráticas a partir da escolarização compulsória no fim do século XIX, com uma organização específica: currículo seriado, sistema de avaliação, níveis, diplomas, entre outros, na tentativa de padronizar a formação do sujeito discente para o mercado de trabalho.

    Segundo Fourez (2008), as escolas passaram a se caracterizar como um lugar fechado e especializado, dedicado a uma tarefa precisa, específica e sistematizada. Deparamo-nos aqui com um impasse importante entre a educação e a psicanálise: ao formar sujeitos (no sentido de propor colocá-los em uma fôrma) que espaço resta para circulação de sua subjetividade, seus desejos? E ainda, que sociedade será produzida por essas crianças quando em idade adulta? A atividade pedagógica, a transmissão de informações que não comportam o mal-entendido, é idealizada como isenta de incertezas, divergências, conflitos – a ciência, saber da escola, sustenta tal onipotência. Freud já apontava: "impossível que o método educativo possa ser uniformemente bom para todas as crianças" (Freud, 1976, p.183)

    Numa tentativa de adequar as crianças à lógica da produção educacional, o cotidiano escolar acaba por ser cada vez mais psicologizado. Lajonquière (1997) aponta para a ocupação massiva de especialistas na cena educativa que tomam o lugar do educador quando avaliam, oferecem diagnósticos e prognósticos, justificam os fracassos escolares e categorizam atos de indisciplina.  Também a psicanálise tem sido cada vez mais convocada a abordar temas como sintomas e fenômenos da esfera do campo escolar.

    A origem da palavra educar é latina,

    educare, por sua vez ligado a educere, verbo composto do prefixo ex (fora) + ducere (conduzir, levar), e significa literalmente 'conduzir para fora', ou seja, preparar o indivíduo para o mundo.” (Dicionário online de etimologia).

    O Dicionário de Português Online Michaellis define o verbo como:

    1 Ministrar educação a. 2 Formar a inteligência, o coração e o espírito. 3 Doutrinar, instruir. 4 Cultivar a inteligência; instruir-se. 5 Aperfeiçoar, desenvolver a eficiência ou a beleza. 6 Criar e adestrar animais domésticos. 7 Criar e fazer multiplicarem-se os animais para tirar deles proveito industrial. 8 Aclimar, plantar ou cultivar, empregando todos os recursos da arte ou da experiência, para obter maior soma possível de produtos ou de vantagens. 9 Criar-se.

    A definição conceitual nos permite atualizar o termo a partir da experiência, e compreender educação como um processo de desenvolvimento de capacidades e por tal objetivo ela é planejada pedagogicamente. Dessa maneira, a educação só é possível se houver a figura de um outro que possui um conhecimento a ser compartilhado e apre(e)ndido pelas crianças.

    O lugar do professor, então, é aquele de valor inestimável no trabalho educacional, visto que é mediador de relacionamentos e territórios, além de ser um importante comunicador social e peça fundamental no processo de desenvolvimento de ensino-aprendizagem, com foco na criticidade e transformação político-social. Para tanto, transferencialmente é preciso que o educador ocupe a posição de Ideal-do-Eu para a criança.

     

    A ética psicanalítica, o educador e a escola

                Consideremos duas afirmações: (1) o sujeito se constitui no discurso social; e (2) a educação pressupõe (também) a transmissão de uma boa dose de um tipo de saber que não se reduz a nenhuma prova científica. Sendo assim, a educação nela mesma propõe uma necessidade identificatória, já que professor e aluno precisam estar implicados mutuamente numa relação de desejos de ensinar e de aprender.

    “Trata-se, portanto, de especificar o que se entende por educação, que pode ser concebida como discurso social, e melhor ainda, como uma transmissão de marcas de desejo, o que a faz ampliar-se para todo ato de um adulto dirigido a uma criança com o sentido de filiar o aprendiz a uma tradição existencial, permitindo que este se reconheça no outro.” (Lajonquière, 1997)

                Em Freud e a educação, Kupfer afirma que é condição necessária que um educador esteja a serviço do sujeito, renunciando sua preocupação excessiva com rígidos métodos de ensino e conteúdos fechados e inquestionáveis. Ao fazê-lo, o professor pode então permitir a emergência de um sujeito de desejo de saber, que pode então representar-se pelos elementos da cultura que lhe são ofertados (na escola) a partir de sua própria constituição, ou seja, estará implicado com aquilo que mais lhe faz sentido dada as primeiras inscrições significantes que podem garantir-lhe lugar no mundo.

     

    A instituição escolar deve, portanto, fornecer à criança uma bagagem de conhecimentos que foram acumulados ao longo da história e que um outro-educador detém. Mas se fosse isso apenas a educação escolar acabaria por assujeitar a criança, reduzí-la a mero reprodutor de um saber exterior a ela e que com ela tem pouca relação. Isso não é possível. Lajonquière (1997) descreve a transmissão de conhecimento como um processo que carrega consigo um traço identificatório:

    Toda educação pressupõe, também a transmissão de um certo saber existencial que não se reduz ao conhecimento sobre nenhum mundo possível. O fato de aprender os números possibilita a um sujeito, por exemplo, contar ovelhas numa noite de insônia [...]. Entretanto, a reconstrução em-si e para-si de um conhecimento qualquer, além de ter efeitos mais ou menos utilitários em diferentes registros da sobrevivência de alguém, extende as fronteiras da vida. Com efeito agora, o sujeito passa a noite acompanhado por outros insones contadores de ovelha [...]. (op.cit.)

                Tenho frequentemente a oportunidade de observar crianças pequenas em suas primeiras atividades de escrita. O desenho que se observa nas folhas de papel muito pouco se parece com as letras que identificamos em nosso alfabeto e que com elas formamos as palavras que nos representam. O que se pode observar é uma grande infinidade de formas de escritas particulares (são garatujas, bolinhas, traços) e, então, um sujeito em um processo de construção de significantes. No trabalho da aquisição da escrita – e esta mesma lógica de apreensão de conteúdos da cultura segue acontecendo por toda vida escolar da criança – não interessa apenas o que se apreende objetivamente (reprodução das letras do alfabeto), mas sim como isso constrói o sujeito subjetivamente.

                Assim, que escuta possível para os sintomas da esfera escolar como indisciplina ou problema de aprendizagem? É preciso incluir o discurso social no qual criança e escola estão inserido para além de uma escuta que considera a formação singular como desviante ou inadequada. Quando isso se fizer possível em todas as salas de aula, os educadores apropriar-se-ão de sua prática sob uma ótica menos moralizante e mais mediadora, e certamente haverá menos encaminhamentos aos psicólogos e outros especialistas.

                Ao educador cabe, portanto,

    instituir regras e se responsabilizar por sua sustentação, sem, contudo, colar-se ao lugar do Saber [...]. Precisa apresentar materiais, sugerir caminhos, como fez Filidoro. Ao mesmo tempo, deve escutar o pouco de sujeito que ali por vezes emerge ou mesmo antecipá-lo para permitir seu advento. Precisa ser capaz, de outro lado, de fazer cessar a intervenção educativa, até ver surgir ocasião de retomá-la. (Kupfer, 1999, [s/p])

     

                    A psicanálise pode oferecer uma contribuição muito valiosa para essa dinâmica educacional: fazer circular a palavra. A instituição escolar, ao instituir um espaço de fala, possibilita aos sujeitos da comunidade escolar (professores, alunos, famílias, funcionários) estabelecer trocas na tentativa de reconstruir e co-construir significados.

                Ao considerarmos que a educação carrega em si uma marca identificatória, torna-se imprescindível que haja na escola um tempo-espaço para que sujeitos que participam dessa comunidade possam partilhar suas experiências e criar, então, significados comuns. Tal oferta contribui expressivamente para a possibilidade de ressignificação das vivências tanto da esfera particular como da escolar.

                Neste espaço de coletivização da associação livre, o que alguns autores denominam Conversação, pretende-se que a palavra circule e o lugar de suposto saber seja ocupado pelo próprio grupo. Isso só é possível quando nos apropriamos da noção de que não somos donos dos significantes. (Miller apud Rubim e Besset, 2007), o que quer dizer que um significante elicia outro significante, importando pouco para o contexto quem o produz, já que todos se relacionam com os mesmos.

                  Santiago (2006) propõe que, assim como em situação de análise no consultório, o sintoma é o disparador da conversação. Ao fazer essa afirmação, garante que é fácil para professores e alunos identificarem aquilo que não vai bem na relação entre eles e também o que não é satisfatório no processo educativo, a saber:

    A forma como o sintoma é identificado, na escola, fornece o tema para as Conversações: “sexualidade e violência”, “indisciplina”, “problemas com autorudade”. Porém, o que a Conversação vai privilegiar não é o saber fixado previamente sobre cada um desses problemas, um saber do Outro, que acaba nomeando o sujeito, ofertando-lhe uma identificação indesejada: criança violenta, jovem marginal. Numa outra perspectiva, trata-se, por um lado, de localizar os pontos de condensação atuais do mal-estar na cultura, e, por outro lado, de valorizar as formas que foram encontradas para abordá-los.” (op. cit., [s/p]

                A conversação é, então, ferramenta preciosa no trabalho de autonomia e reconhecimento primordiais ao processo educativo, dado que todos estão implicados na produção de um saber.

                Os educadores neste cenário podem ouvir suas próprias produções discursivas e reavaliar e repensar sua prática constantemente, articulando novos saberes aos seus velhos e novos fazeres.

                Não é pretensão da psicanálise normatizar comportamentos ou adequar sujeitos. Ao contrário, a psicanálise reconhece o educador como sujeito de desejos, ciente de sua incompletude. Somente assim esse professor formará com seu aluno uma relação de parceria, para além da relação de mestre do saber que supõe a escola, com o objetivo claro de conduzir o aluno na busca do que lhe falta a partir do reconhecimento de que também a falta está inscrita em si. Essa é a verdadeira essência da educação: tornar os alunos mestres de si próprios. O que está sob avaliação então não pode ser o sucesso escolar ao final do processo, mas sim a consolidação de que a busca pelo não-sabido é constante e sempre, o que faz com que as possibilidades sejam infinitas para o sujeito mestre-aprendiz.

                No tempo em que o discurso científico é validado e reconhecido como sendo o único representante do saber, a psicanálise atravessa essa lógica conferindo ao sujeito o status de sabedor de seus saberes, legitimando sua fala.

    Referências

    CARVALHO, J. M. O não lugar dos professores nos entrelugares de formação continuada. Revista Brasileira de Educação. n.28 jan/fev/ mar/abr. 2005.

    Dicionário de Português Online Michaellis

    Dicionário Online de Etimologia.

    FOUREZ, G. Educar: docentes, alunos, escolas, éticas, sociedades. Aparecida, SP: Idéias & Letras, 2008.

    FREUD, S. (1976) Explicações, aplicações e orientaçõesEdição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud, v.22. Rio de Janeiro: Imago. Originalmente publicado em 1932.

    KUPFER, M. C. M. Freud e a educação: o mestre do impossível. São Paulo: Scipione, 1989.

    KUPFER, M. C. M. Freud e a educação, dez anos depois.  Revista da Associação Psicanalítica de Porto Alegre. v.1, n.16, p.14-26, Porto Alegre. 1999.

    LAJONQUIÈRE, L. Dos “erros” e em especial aquele de renunciar à educação. Notas sobre psicanálise e educação. Estilos da Clínica, v.2, n.2, [s/p], São Paulo. 1997.

    RUBIM, L. M., e BESSET, V. L. Psicanálise e educação: desafios e perspectivas. Estilos da Clínica, v.12, n. 23, São Paulo, dez. 2007.

    SANTIAGO, A. L. O mal-estar na educação e a “conversação” como metodologia de pesquisa-intervenção em psicanálise e educação. Palestra proferida nas Jornadas do Núcleo Interdisciplinar de Pesquisa e Intercâmbio para a Infância e Adolescência Contemporâneas, do Instituto de Psicologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro – NIPIAC/UFRJ, out. 2006.

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    Paula Cintra dos Santos