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  • 07

    JUL

    2015

    Nem todo não é o mesmo não - Educação Inclusiva

    por Ilana Joveleviths em 07/07/2015

    Há cerca de três meses entrei em contato com uma reportagem do jornal Folha de São Paulo, a qual me despertou para algumas questões. A verdade é que tais questões já vinham me inquietando, mas a reportagem deu forma a tudo isso e ampliou meu desejo de compartilhar essas inquietações. A reportagem de capa do Caderno Cotidiano, do jornal Folha de São Paulo, do dia 15 de março de 2015, ilustrava a saga de uma repórter que se passava por mãe de um menino de seis anos com síndrome de Down em busca de uma vaga em colégios particulares na cidade de São Paulo. O texto apontava as escolas que foram receptivas, mas apresentando condições para que a matrícula pudesse ser feita (como a necessidade de um acompanhante constante ou a existência de uma “cota de inclusão”), as que desencorajaram a matrícula (com um discurso recorrente de despreparo para lidar com a situação) e as que recusaram ou sequer responderam à tentativa de contato. A reportagem mostrava ainda a mudança no discurso ao saberem se tratar de uma repórter, sendo que boa parte das escolas passou a se mostrar mais receptiva do que antes.

    Essa é uma realidade constante na vida de diversas famílias cujos filhos não se enquadram no padrão estabelecido de “normalidade”, aquelas mais comumente chamadas de crianças ou jovens com necessidades educacionais especiais. Diversas leis, desde a constituição de 1988 reforçada pelo Estatuto da Criança e do Adolescente (1990), pela Declaração de Salamanca (1994), a Lei de Diretrizes e Bases (1996), entre outras, reforçam a importância, a necessidade e a legitimidade do acesso ao ensino regular por parte de toda criança, indiscriminadamente. No entanto, as leis não são suficientes para a promoção de transformações culturais mais profundas e, apesar de todo esse aparato legal e diversas políticas públicas voltadas para a área, diversas escolas ainda dizem não para os tais alunos “de inclusão”. Infelizmente, que inúmeras escolas particulares dizem não e encontram formas da família desistir de matricular o filho naquele ambiente com frases desencorajadoras não é novidade. Porém, a reportagem da Folha traz escolas reconhecidas por realizarem um trabalho sério com os diferentes alunos que chegam, buscando desenvolver estratégias para lidar com as diferenças no cotidiano escolar e o fato dessas escolas falarem não ou imporem determinadas condições para aceitarem alunos de inclusão chamou minha atenção.

    Isso me remeteu instantaneamente à minha experiência enquanto profissional responsável pelo projeto inclusivo de uma escola que, assim como algumas que apareceram na reportagem e outras, se propõe a dar conta desses desafios. Digo desafios, pois o fato de ser defensora integralmente da inclusão dessas crianças na escola, não me faz deixar de saber que a cada novo aluno que recebemos, temos um grande desafio pela frente. O desafio é o de movimentar toda uma equipe para buscar novas estratégias de produção de conhecimento, é o de encontrar tempo para a confecção de novos materiais e recursos, o de lidar com a angústia de famílias e professores que se afligem com o estudante que não aprende como os outros ou que não aprende o que os outros aprendem, o de conseguir realizar um trabalho bacana não apenas com esse aluno, mas com todos da turma. As escolas que, de fato, estão abertas para todos os alunos não costumam ter apenas uma criança na sala que é diferente dos demais e que necessita de adaptações, pelo contrário, muitas vezes são escolas que olham cada criança como alguém diferente e com uma forma própria de aprender e, portanto, as estratégias e recursos a serem desenvolvidos são os mais variados e isso envolve muito trabalho por parte de todos os envolvidos nesse processo.

    Posto isso, explico meu incômodo com a reportagem. Acredito que nem todo não seja o mesmo não. Possivelmente, cada uma das escolas mencionadas ali, tem uma realidade e um projeto político-pedagógico bastante distinto; no entanto, muitas delas podem ter o desejo de tornar a inclusão uma realidade e encontrar diversos obstáculos pela frente. Enquanto reportagem, de um veículo de comunicação supostamente sério e não como relatório de um processo jurídico, acredito que a Folha teria feito muito melhor em tentar entender e não apenas denunciar o que produz o não de cada uma dessas escolas. Evidentemente que, ao saber estarem fazendo algo contrário a lei, as escolas tendem a transformar o discurso em prol de manter sua imagem e não sofrerem acusações e possíveis processos. No entanto, enquanto tentativa de entender o fenômeno, a reportagem falha em não aprofundar a complexidade que essa discussão demanda. É apenas tentando entender o que produz cada um desses nãos, que nos aproximamos de uma realidade muito mais cinza do que o preto das famílias que não encontram escola e o branco das escolas que só querem alunos “normais" (nem entrarei aqui no mérito da impossibilidade desse desejo e suas consequências também desastrosas). O não de escolas que há anos têm realizado um trabalho sério e bem sucedido nessa área é extremamente preocupante e, se não entendermos suas raízes, teremos uma análise empobrecida e, o que é pior, uma insuficiência de elementos que nos permitam compreender e desenvolver possibilidades de transformar essa situação. Do que as escolas estão falando quando dizem não estar preparadas? Será que é apenas falta de vontade? O que seria estar preparado? O que falta para que se sintam preparadas? Como está a formação dos professores nas universidades no tocante a esse tema? O que seria uma “cota inclusão”? O que acontece quando uma única escola de uma região com centenas de escolas passa a receber todos os alunos com necessidades educacionais especiais, encaminhados inclusive pelas outras escolas pelo bom trabalho ali feito? Como se manter uma escola regular e não se tornar uma escola especial nessas condições?

    Inclusão não é só dizer sim. É transformar toda uma proposta pedagógica em função de fazer caber as diferenças, é contar com uma equipe envolvida e comprometida com essa questão, disposta a gastar mais tempo e energia para reformular diversas de suas atividades para cada aluno que necessita, é estar em contato com famílias que estão profundamente marcadas por histórias, na maior parte das vezes, extremamente difíceis, é fazer parceria com uma rede de apoio externa à escola para atender a todas as demandas do aluno buscando estabelecer um projeto que dialogue com todos os campos de sua vida, é abrir o diálogo sobre o que desperta o contato com o diferente com toda a comunidade escolar, garantindo que todos estejam caminhando juntos por mais que em diversos momentos isso pareça impossível de acontecer.

    Enfim, se não pudermos dizer com todas as letras que o projeto de uma escola inclusiva de verdade é trabalhoso e demanda cuidado, atenção, recursos (principalmente de pessoas) e muito empenho, estaremos fazendo uma análise rasa, correndo o risco de fazer acusações que produzam pouca mudança. Não tenho a menor dúvida de que as famílias têm que ter muita clareza de que o ensino regular é um direito e que podem e devem procurar a justiça quando este lhes é negado. Mas se não nos questionarmos sobre o porquê desses nãos se perpetuarem, tenderemos a realizar mudanças pontuais na vida de uma ou outra criança ao invés de olhar para a cara e o corpo do problema em busca de empreender de fato transformações mais profundas no nosso sistema educacional (produtor, ainda hoje, de tanta exclusão). As leis são fundamentais para impulsionar esse processo, mas elas por si só, não transformam realidades tão cristalizadas como a nossa. Ao colocarmos todas as escolas no mesmo “saco” manteremos uma ideia de que existem apenas vilões e mocinhos e perderemos a chance de buscar compreender genuinamente o que produz essa realidade e quais são os nós que precisamos juntos começar a desatar.

    Ilana Joveleviths é Psicóloga, mestranda em Psicologia Escolar e do Desenvolvimento Humano pela USP. Atua como Integrante da Equipe de Coordenação do Colégio Viver e como psicóloga clínica realizando psicoterapia individual para crianças, adolescentes e adultos.

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    Ilana Joveleviths