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  • 14

    JUL

    2015

    O problema da água para além da má gestão do Estado de São Paulo

    por Redação em 14/07/2015

    Ao pensar a questão do uso da água no Planeta Terra, esforçando-se para propor “a Via para o future da humanidade”, o advogado, historiador, geografo, filósofo, sociólogo especializado em epistemologia, Edgar Morin, pesquisador do Centre National de la Recherche Scientifique, é bastante claro.

    “Hoje em dia 1,5 bilhão de pessoas não tem acesso á água potável; 2,4 milhões de seres humanos ainda vivem sem os serviços de saneamento básico. De 1990 a 1996, a proporção da população mundial sem redes de esgoto passou de 64% a 67%. Os países que sofrem de estresse hídrico ou que dispõem de menos do que 1000 m³ de água por pessoa e por ano tornam-se cada vez mais numerosos. A cada dia, 30 mil pessoas morrem atingidas por doenças decorrentes da escassez de água potável e de saneamento básico; Na África do Sul, 600 mil agricultores brancos consome 60% dos recursos hídricos do país na irrigação, enquanto 15 milhões de cidadãos negros não tem acesso a agua potável; metade das aldeias palestinas não tem agua corrente, ao passo que todas colônias israelenses são abastecidas; o consume diário médio de água da população dos países “em desenvolvimento” é de cerca de 20 litros. Na Itália, ele sobe para 213 litros, nos Estados Unidos, 600 litros (na Califórnia 4,1 mil litros!). O Brasil representa 11% dos recursos de água doce do planeta e mais de 45 milhões de brasileiros ainda não tem acesso a água potável.”[1]

    A questão que nos resta é saber se existe vontade para resolver rapidamente estes problemas, nos compreendermos como parte dele exercitando nossa consciência e nossa ação e exigindo de nós mesmos e das autoridades responsáveis, uma boa gestão sobre os recursos naturais das nações.
     

    Para Pepe Mujica, agricultor e ex-presidente uruguaio, as respostas estão dentro da própria natureza:

    “Pienso que el siglo en el que estamos es el siglo de la biología. Es tan compleja la biología, la naturaliza experimento tantos millones de años, que ha dado respuesta a casi todo lo que se te pueda ocurrir. El asunto es bucear y encontrar las respuestas dentro de ese baúl. Estamos tocando el misterio, porque empezamos a tener las claves para entrar [...]”

    De toda a água existente na Terra, cerca de 97,5% dela é salgada e apenas 2,5% é doce. Existe um grande problema na forma de organização do sistema capitalista quando se desconsidera o valor da natureza. O tempo necessário para renovação de recursos naturais como a água, que depende da fotossíntese, evaporação e chuva, não pode ser desrespeitado pelo ritmo de exploração dos recursos hídricos em grande parte direcionado a indústria e agricultura. Ou seja, a consciência do uso doméstico logicamente é necessária, mas insuficiente para reorganizar um problema profundo.

     

    Uso da Terra[2]

    Mercosul

    12%

    América do Norte

    49%

    Europa

    56%

    Ásia

    62%

     

    Disponibilidade de agua doce em metros cúbicos per capta[3]

    Mercosul

    39.430

    EE.UU.

    8.800

    UE

    3.783

     

    Distribuição da água doce na Terra[4]

    68,9%

    Congelada nos polos e montanhas

    29,9%

    Subsolo

    0,9%

    Outros reservatórios

    0,3%,

    Disponível em rios e lagos

     

     

    Se não pensarmos a serio a questão da responsabilidade sobre o uso dos nossos recursos naturais em pouco tempo poderemos cair em cenários desastrosos como sugerido pela FAO (Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura) que afirma que em 2025 cerca de 1,8 bilhão de pessoas poderão chegar a viver em países ou regiões com escassez de água absoluta. Segundo dados da Unesco, 27% da população urbana no mundo “em desenvolvimento”  ainda não conta com água encanada em sua residência, mesmo com a ONU em 2010 já tendo declarado a água potável e o saneamento básico como um direito humano essencial.

     

    O Brasil é o país mais rico do mundo em recursos hídricos concentrando cerca de 12% da água doce do planeta.

    A crise de água vivenciada pelos moradores do Estado de São Paulo talvez pudesse ter sido evitada caso o governador Geraldo Alckimin tivesse escutado as previsões elaboradas já há mais de dez anos. Em 2001 o Secretário de Recursos Hídricos Antonio Carlos de Mendes Thame já informava sobre a queda do nível de água no sistema Cantareira e o possível colapso do abastecimento.

    Apesar das desavenças constantes entre PT e PSDB, foi realizada uma parceria entre o governo federal e o governo do Estado de São Paulo, com a presidente Dilma e o governador Geraldo Alckimin assinando um contrato de R$ 3,2 bilhões de investimentos para obras de abastecimento de água e mobilidade urbana. Por meio de parceria público privada, a parceria teve como vencedora da licitação das obras a empresa Sistema Produtor São Lourenço S. A.

    A empresa poderá obter retorno financeiro por meio dos serviços prestados a Sabesp (responsável pelo abastecimento de água do Estado de São Paulo).

     

    A referência de Barcelona

     

    De 2009 para 2011 Barcelona conseguiu conquistar a proeza de ser uma das únicas cidades do mundo a reduzir o seu nível de consumo de água de forma consciente, de 97,47 milhões de m3 para 17 milhões de m3 . Os cidadãos de Barcelona consomem cerca de 109,5 Litros por dia. Muito menos que os de Londres, com 166,5 Litros por dia, Paris com 120 Litros por dia, Roma com 120 Litros por dia, Vancouver com 320 Litros por dia, Nova Iorque com 473,8 Litros por dia, ou de São Paulo com 177,8 Litros por dia. Em Barcelona o consumo doméstico representa 66% do consumo da água, enquanto que o comercio e a indústria utilizam 28,4%.[5] A educação ambiental é uma prática difundida na cidade não apenas em relação a água, mas também na organização dos resíduos para reciclagem por exemplo, pensados em conjunto com o planejamento urbano da cidade que foi elaborado para receber e aproveitar os Jogos Olímpicos de 1992, conjecturando seus impactos e consequências sociais.

     

    Permacultura a mudança de paradigma

     

    A Permacultura (termo criado por Bill Mollison e David Holmgren) se fortalece cada vez mais em todo mundo como uma alternativa para um sistema que não pode mais fechar os olhos para falência de uma organização social que pensa seu desenvolvimento econômico mediante a exploração de recursos naturais de forma irresponsável. Nos parece claro que extrair recursos naturais para produzir mercadorias a serem consumidas e descartadas é um modelo de pensamento linear insustentável. Uma vez que não existe jogar fora já que estamos todos dentro do mesmo planeta, precisamos cuidar da nossa Terra com responsabilidade. As técnicas de permacultura já são capazes de gerir um sistema de vida circular que reduz drasticamente o impacto humano sobre o meio ambiente, com construções naturais de adobe e pau a pique, água sanitária sendo reaproveitada para plantio, energia solar, hortas e agroflorestas mantendo plantas nativas e frutíferas em conjunto para fertilizar e preservar o solo, dentre outras tantas coisas. No Brasil diveras experiências já colocam isto em prática, a exemplo de tantos coletivos como Coletivo Gaia de Brasília, Barro Molhado em São Paulo,   IPEMA (Instituto Permacultura e Mata Atlântica) em Ubatuba, tantos outros, tantos educadores, lutando todos os dias por isto, como Ed Grandisoli, Beto Samu, Eduardo Bonsato, Lígia Bertolomucci, tantos outros. E você? Ainda nem recilcia o seu lixo? 

     

     

     


    [1] Estes dados foram públicados em 2013 pela Editora Bertrand Brasil em  a Via para o future da humanidade, de Edgar Morin.

    [2] Fonte: Reunião do Grupo Intergovernamental sobre a Carne e os Produtos Lácteos, organizada pelas Nações Unidas em Maio de 2009.

     

    [3] Fonte: Reunião do Grupo Intergovernamental sobre a Carne e os Produtos Lácteos, organizada pelas Nações Unidas em Maio de 2009.

     

    [4] A escassez de água pelo mundo (Foto: Reprodução/International Water Management Institute, 2007)

     

     

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