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  • 12

    AGO

    2015

    Tudo ao seu tempo: reflexões sobre a Humanização do Parto e a Educação

    por Patrícia Canato em 12/08/2015

    Sempre que vejo uma mulher amamentando, lembro-me instantaneamente da nossa condição animal e do quanto – cobertos por camisas, ternos e saias – tentamos encobrir tudo o que nos é mais instintivo. Penso que o ser humano, ao longo de sua suposta evolução, quis se distanciar dessa condição afirmando veementemente ser racional e renegando que fazemos parte de um todo, que é a natureza. Resgatar esse animal "dentro" de nós, em alguns momentos, me parece essencial, pois a primazia do racional nos aproximou por demais das máquinas. Hoje, é preciso esforço para humanizar.

    Foi ao assistir ao documentário "O Renascimento do Parto" dirigido por Eduardo Chauvet, em 2013, que comecei a me interessar e refletir sobre as questões do parto humanizado. Sempre bastante ligada ao universo infantil por meio da escola, fiquei intrigada com a maneira pouco pessoal com que estávamos tratando um momento tão delicado, importante e bonito: o início de uma vida.

    O nascimento, que deveria ser algo natural e instintivo, foi automatizado. A mulher engravida e muitas vezes, desnecessariamente, a data da cesárea é marcada e anotada na agenda como mais um compromisso. Talvez porque desconheçamos os malefícios dessa atitude, talvez porque não tenhamos tempo a perder, talvez porque não queiramos passar pela ansiedade de esperar o romper da bolsa, talvez porque não queiramos a angústia e a dor do trabalho de parto. Sim, são diversas as possibilidades, mas uma única certeza: as grávidas (e grávidos!) precisam de mais informação, e diria até de formação, para poder passar por esse processo de maneira mais consciente. 

    A intenção não é demonizar a cesárea, pelo contrário, certamente ela é um grande avanço da medicina para os casos em que há algum risco para a vida da mãe ou do bebê. Mas ela é, ou pelo menos deveria ser, um desvio de percurso, uma exceção. É passado o momento de refletirmos sobre o elevado número de nascimentos com hora determinada no Brasil e sobre o trato que damos aos recém-nascidos em suas primeiras horas de vida.

    Ao marcar a data da cesárea, desrespeitamos de imediato o momento correto de nascer; e é muito difícil saber a idade gestacional exata, o que pode acarretar em um nascimento tecnicamente prematuro. Além disso, a maior parte dos nossos bebês são retirados do ventre materno e submetidos a diversos exames e procedimentos antes mesmo de um contato com aquela que, até então, era tudo o que ele conhecia. A criança chega ao mundo obedecendo à lógica do tempo do outro e tendo ignoradas suas necessidades de afeto e acolhimento. Não é compreendida em suas necessidades mais humanas, mais viscerais.

    O curso da vida segue nesse ritmo e as crianças percebem desde muito cedo que o tempo do outro é sempre mais importante do que o delas, que mamãe e papai ficam muito angustiados se não têm suas expectativas correspondidas no momento adequado e que algo "especial" acontece ao entrar na maior parte das escolas – elas devem aprender todas da mesma maneira e ao mesmo tempo, de preferência no tempo do outro. Assim como automatizamos o parto, automatizamos o aprendizado, e a singularidade das nossas crianças mais uma vez é relegada.  

    Notem que ao escrever "automatizamos" não o faço por convenção textual, mas por assumir que ainda participo da replicação de um modelo tradicional de ensino. Esse texto, e a participação na CONANE, são parte de um esforço contínuo de uma educadora/educanda em apropriar-se de sua humanização.

    Pensar, portanto, na maneira como queremos receber nossas crianças no mundo é refletir sobre o tipo de experiência que desejamos que elas tenham em sociedade. Ao compreender que é preciso respeitar o tempo de um bebê nascer, que é necessariamente diferente um do outro, me parece muito mais natural que possamos também compreender o tempo de aprendizagem das crianças. Estaremos atentos para observar e admirar o ser único que cada uma delas é – com expectativas em relação ao seu desenvolvimento sim, mas construídas na relação e interação com aquele ser humano específico.

    Ao subverter a lógica vigente, por meio da educação em seus mais diversos níveis, podemos construir um olhar mais humano em todos os sentidos. Parece-me que humanizar o parto faz parte de uma concepção de vida, na qual educadores, profissionais ou não – seres humanos, enfim – saibam respeitar seu semelhante da maneira mais sutil, em seu tempo, e, mais do que isso, saibam acolhê-lo assim que se mostra maduro, seja para nascer ou aprender – que em si é um renascimento, pois muda nossa forma de estar no mundo.

    Patrícia Canato

    Essa é uma reflexão-convite para trocarmos experiências na roda de conversa "Parto Humanizado – como queremos receber nossas crianças no mundo?" que acontecerá na CONANE (Conferência Nacional de Alternativas para uma Nova Educação), em setembro. Além de mim, estarão presentes duas doulas queridas, Lígia Branco e Natália Cunha, que certamente contribuirão com nossa (trans)formação a respeito da humanização do parto.

    O RENASCIMENTO DO PARTO. Direção: Eduardo Chauvet. Produção: Érica de Paula, Eduardo Chauvet. Roteiro: Érica de Paula. Brasil, 2013. 1 DVD (90min).

     

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    Patrícia Canato