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    FEV

    2016

    Voemos: Filho, este tem sido um ano de grandes transformações

    por Nátalin Guvêa em 04/02/2016

    Não que estejam fáceis, mas estamos mais perto de quem somos. 

    A mamãe largou um emprego totalmente opressor, onde por muito tempo eu tive que dançar conforme a música, e lá se foram 10 anos. Neste tempo conheci muita gente bacana, muita gente que me fez aprender por amor e por dor. E neste mundo corporativo capitalista, a dor algumas vezes (ou quase sempre) prevalece.  Não foi uma decisão fácil, mas a mamãe, daqui pra frente, anda mais feliz do que você, quando vê um bolo de chocolate. Estamos nos adaptando sem carro, eu comprei uma bicicleta, seu pai desdobra-se em mil quando precisamos do carro dele.

    Você vai para o ensino público, pra mim foi uma das decisões mais certeiras que tomei, o resto das pessoas não entendem, pouquíssimas entendem. Você está vindo de um ensino particular que pagávamos muito além da nossa realidade. E veja, todo aquele valor não era condizente ao ensino, nem ao ensino humano, nem criativo, nem amoroso.  A escola, no últimos dois meses de aula antes das férias, dividiu a sala entre as crianças que sabiam e que não sabiam ler, aquilo pra mim foi a gota. Já vi ali muitas pregações de ódio,  ao governo, à direção, aos pais…seu colégio era em um bairro nobre, onde as outras pessoas achavam que podiam ser umas mais arrogantes que as outras, as mães se juntavam para falar mal da escola em um grupo, uma pressão gigantesca para que todos os alunos lessem logo, as mães pressionavam a escola, mas nunca vi as mães se juntando para melhoria da escola de qualquer forma que seja, nem juntando para discutir sobre a importância de criar autonomia das crianças, políticas de ensino ou discutir essências e valores. Nem receitas de bolo que seja.

    Neste ano, te vi com 5 anos, indo para a primeira série, onde as brincadeiras não eram mais prioridade, provas, carteiras e como você mesmo dizia: “Agora posso ir para a diretoria se fizer coisa errada mãe.”

    Meu coração na mão.

    Bento, você cresce sendo responsável por suas atitudes, nós, sentamos, conversamos e chegamos juntos a um acordo, você não é o centro do mundo e as outras pessoas do mundo não são o centro, somos um todo.

    O problema que nenhuma escola da nossa cidade pensa numa educação livre desses preceitos, as mães acham que seus filhos são todos especiais e precisam da maior atenção do mundo em todos os aspectos. Assim, ninguém cresce pensando no coletivo, e vão dar de cara com a rua,  a realidade não é a mesma que as mães pregam dentro de casa enquanto comandam a vida de seus filhos, e depois meu filho, é um labirinto até se achar.

    Te expliquei que agora você vai para uma escola “mais curtinha” e que poderemos passar o resto do dia juntos fazendo atividades, então você nem sofreu. Você adquiriu uma capacidade bonita de adaptação.

    Como estará em escola mais curtinha, e mamãe vai trabalhar de casa, a tarde será para trabalhar sua criatividade, autonomia e as vertentes que são de você, as coisas que ama, música, brincadeiras, pintura, desenhos, vamos conhecer os lugares, falar com pessoas, esclarecer suas dúvidas, brincar nas ruas, resgatar brincadeiras antigas etc etc além de você também se dedicar ao seu ipad algumas vezes, pois também é filho de 2010.

    Você não gosta de experimentar as coisas, estamos fazendo esta lista, pois trabalha sua escrita e ao mesmo tempo se abre para o novo. (A pizza foi coisa do seu pai, já sabe né?)

    Mamãe voltou pra faculdade

    Você me perguntou ontem : E aí mamãe, como foi a aula?

    Eu sorri tão largo, mas não tão largo, de quando vi esse desenho.

    Coloquei na parede pra eu lembrar meus motivos quando as aulas estiverem chatas e exaustivas.

    Hoje ficamos em casa, suas aulas só começam daqui uns dias

    Você tem um consumo excessivo de brinquedos, por conta de ser neto único, ganhar um brinquedo a cada respiro, de todos, por todos. Você acha que é simples comprar brinquedos, eu e seu pai estamos nesta lida, de te explicar que as coisas não são descartáveis, tento te mostrar que o sentimento de brincar é mais importante que o brinquedo. Mas vamos com calma. Fazendo nossos brinquedos, respeitando passo a passo das coisas.

    Hoje fizemos uma atividade aqui em casa que saiu da sua cabeça: MAMÃE VAMOS BRINCAR DE JUNTAR UM BRINQUEDO NO OUTRO, TIPO FUNDIR?

    Trabalhamos com essa brincadeira gostosa, 3 coisas:

    -De que seus brinquedos, por mais tempo que você o tenha, podem ser legais de outras formas

    -Que quando juntamos nossa força com a força do outro, ficamos mais fortes

    -Trabalhamos a dinâmica de encaixe, qual brinquedo encaixaria com qual e qual o novo poder, poderia gerar.

    O que também tem chamado muitíssimo a atenção, é a evolução dos seus desenhos, você desenha inúmeros dinossauros na maior diversidade e também, desenha cenas incríveis, como nós num castelo de diamantes protegido pelos super-heróis. Desenha cenas e o movimento delas, tipo em 3 partes (quase um filminho). Tem estrelas, saturno, sol, naves espaciais, chuvas de meteoros e etc. Colocamos sempre uma música incrível para inspirar. O ambiente é sempre musical, e entre um dinossauro e outro, você dá umas dançadinhas pela sala.

    As escolas costumam limitar o pensamento do aluno, dando diretrizes, impondo e demarcando limites. Por acaso, hoje achei esse caderno do ano de 2015 e comparei com os desenhos seus desta semana.


    Aqui em casa depois desta mudança tratei de deixar os pincéis, as tintas, as folhas, os instrumentos musicais, tudo ao seu alcance. Esse seu quadro penduramos no corredor. Você pintou com o papai.

    Hoje, você fez você uma luta, contra o nó-de-sapato, seu inimigo real hahaha, você e o nó de sapato é uma briga constante, achei incrível você materializá-lo. 

    Enfim, meu amor. Mamãe está assim, tentando ser melhor em diversos aspectos, abrindo os olhos, posso tentar amortizar alguma partícula que seja do que eu sinto de falho neste mundo, mas em outras partes, eu que sou a falha, e em outras, você que vai ter que descobrir sozinho.

    Este mundo não é simples, é tudo complexo, mas estamos aqui pra isso, descomplicar e viver as coisas de forma que possamos ser grandes de alma. Precisamos conectar com as grandezas.

    E isso inclui estrelas e abraços sinceros.

    E eu, sempre estarei ao seu lado.

    Com amor, sua mãe. 

     

     

    Nátalin Guvêa é mãe do Bento. Artista visual, cursa licenciatura em História pela Uniso/Sorocaba, é pesquisadora da educação alternativa e arte como agente de desenvolvimento social e humano.

     

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    Nátalin Guvêa